"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana"(Carl Gustav Jung).


10 de abril de 2015

Quebrando o Encanto da Mulher-Princesa do Século XXI: uma reflexão da psicologia analítica de Jung a partir do mito de Lilith


A mulher do século XXI segundo Gomes e Almeida (2007) conquistou sua liberdade e sua igualdade jurídica perante a comunidade dos homens, contudo, a figura feminina continua envolta em uma bruma de mitos e de ignorância sobre seus papeis sociais. O papel que a mulher ocupa na sociedade atual demonstra claramente as consequências deste fato construído historicamente e que estabelece as normas que orientam sua posição no círculo social. Compreender essa dinâmica ao longo do tempo é essencial para que se identifiquem os fatores que interferem na imagem feminina e em suas possibilidades de alcance nos mais variados setores da sociedade. A mulher contemporânea é mãe, profissional, esposa e ainda deve encontrar tempo para cuidar de si. Nesse sentido, a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung faz referência a alguns aspectos do inconsciente e suas relações com o mito de Lilith

Na mitologia Lilith não é explicitamente apresentada nas escrituras Judaico-Cristãs, porém, vem sendo estudada em textos da antiguidade, principalmente da Torah assírio-babilônica e hebraica, além de outros textos apócrifos.  Lilith é a primeira companheira de Adão, criada do mesmo material que ele, igual a ele. As lacunas bíblicas permitem a hipótese da retirada desta personagem do texto, além do mito em si e as análises pertinentes à Psicologia.

“O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística, que se colocada lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica dos sacerdotes (…) a lenda de Lilith, primeira companheira de Adão, foi perdida ou removida durante a época de transposição da versão jeovística para aquela sacerdotal, que logo após sofre as modificações dos pais da Igreja”, como explica Sicuteri (1998, p.43). Segundo esta narrativa mítica, ao contrário de Eva que foi criada por Deus da costela de Adão ( segundo a narrativa de Gênesis), Lilith, de acordo com Hermínio, foi feita do barro, à noite. Lilith tinha em sua aparência obscura sangue, saliva e lágrimas. Assim, Lilith teria sido criada tão bonita e interessante que logo arranjou problemas com o primeiro o homem. Ainda segundo a narrativa mítica, Eva foi criada para substituir Lilith. Eva seria o oposto de Lilith.

No entanto, na perspectiva do mito, as relações entre Adão e Lilith foram marcadas pela emergência pela paixão capaz de dominar Adão e fazê-lo perder a razão e entregar-se a luxuria. Acredita-se que a sedução produzida por ela o fazia afastar-se de seus compromissos com a divindade. A tradição dos transcritos oral das versões aramaicas e judaicas afirmam que a relação entre os dois era perturbadora. Os conflitos entre Lilith e o primeiro homem decorriam da atitude desta contra a submissão que lhe fora imposta pela comunidade patriarcal. Diante da recusa de Adão ao pedido de Lilith por igualdade, inclusive durante as relações sexuais, ela é expulsa da comunidade dos homens e recebe como punição o exílio no Mar Vermelho e sua transformação num demônio feminino (Gomes e Almeida 92007).



Ainda, conforme Gomes e Almeida (2007) a narrativa do mito de Lilith nunca foi considerada como canônica pelos Pais da Igreja pertencendo a chamada literatura apócrifa ou deuterocanônica.  A alta crítica de caráter liberal considerou estes escritos como pertencendo a chamada produção jeovística, que precede de alguns séculos, a versão canônica sacerdotal. Esta versão é contestada pela igreja católica e protestante. Para os autores Lilith é desconhecida do cristianismo primitivo embora tenha aparecido nos primeiros séculos da era cristã.

A tradição oral de acordo com Gomes e Almeida (2007) afirma que Adão queixou-se a Deus sobre a fuga de Lilith e, para compensar a tristeza dele, Deus resolveu criar Eva, moldada exatamente para as exigências da sociedade patriarcal. Eva, segundo a narrativa bíblica foi criada por Deus à partir da costela de Adão. É o arquétipo, modelo feminino, segundo a tradição judaico-cristã. Desse modo, Eva é aquela mulher submissa e devotada ao lar. Assim, enquanto Lilith é força destrutiva (o Talmude diz que ela foi criada com a imundície da terra e do lodo), Eva é construtiva e Mãe de toda humanidade (ela foi criada da carne e do sangue de Adão) segundo Gen. 2: 1-21. O ideal de uma mulher submissa domina o imaginário cristão na sociedade católica brasileira. Este desejo de submissão da mulher ao homem pode ser bem exemplificada pela síndrome de Amélia do poema “Ai que saudades da Amélia” da letra de Ataulpho Alves e Mário Lago.

Na perspectiva analítica de Carl Gustav Jung os mitos são considerados como verdades puramente psicológicas, ou seja, estruturas da mentalidade humana. São arquétipos que servem para compreender o desenvolvimento do pensamento humano em sua totalidade. Não convém discutir se Lilith existiu, se foi um mito dos povos pré-bíblicos ou não. Importa considerar o mito como uma parábola para se compreender alguns comportamentos femininos atuais. Desse modo Lilith é atual e serve para compreender alguns aspectos do comportamento da mulher ocidental em sua luta pela reintegração na comunidade dos homens. O mito de Lilith não esgota em si mesmo tudo que se pode escrever sobre a mentalidade da mulher.

Na visão junguiana, Lilith seria o lado obscuro e negativo da anima, isto é, os aspectos femininos não integrados da psiquê humana. Em termos gerais, isto quer dizer, que ela representa o oposto das características que foram culturalmente atribuídas como obrigações femininas. Lilith representa, portanto, a rebeldia contra a passividade, à submissão e a obediência. O repúdio à tradição patriarcal de dominação do homem sobre a mulher; a luta pela igualdade de condições e direitos e principalmente o desenvolvimento de ações seguras e assertivas diante de seus ideais.

Relacionando esse mito à psicologia analítica pode-se afirmar que ele carrega em sua estrutura onírica uma verdade puramente psicológica. No caso de Lilith o mito refere-se a uma figura arquetípica feminina: o lado negativo da anima, cujo caráter de arquétipo assegura seu aspecto primitivo. Lilith é a mulher em estado natural, antes de sofrer as transformações impostas pela cultura. Neste estado a mulher recusa-se a submeter-se ao homem seja no ato sexual, seja nas relações entre os sexos na vida cotidiana. Lilith, portanto, se reconhece como igual ao homem, não admitindo nenhuma hierarquia nem biológica, nem social. É sua igual e espera ser tratada assim pelo varão como enfatiza Gomes e Almeida (2007).

E então? O que há de errado com as mulheres independentes? São todas loucas ou demoníacas como a mitológica Lilith? Ou ambas as coisas?  O lado demoníaco parece ser o resultado da tentativa da mulher em reinventar a condição de mulher em uma cultura que prescreve um papel muito diferente como sendo adequado para as mulheres. O que observa-se é que a mulher, “verdadeira”,  a cinderela que precisa de um príncipe, ainda é a mais aprovada pela sociedade, enquanto que as independentes ainda lutam contra os critérios advindos da cultura tradicional que prescreve que toda mulher deve ter um homem, se casar, ser mãe e cuidar da prole.

Para Neotti (1973) está ocorrendo uma transformação na imagem tradicional e servil da mulher. A mulher não é mais objeto de satisfação dos desejos do homem e símbolo da natureza bruta, mas sim mediadora do próprio universo, sujeito, pessoa livre, consciente e responsável. Torna-se portanto tormento para o homem, questionando-o a cada momento de sua existência comum, no mais profundo do seu ser.



Todavia a mulher independente está tendo um novo olhar para o amor, para os homens, para o trabalho e estão pagando um preço alto, em especial sobre o amor, já que nossa cultura considera o amor um “tema feminino dependente”. Espera-se que a mulher seja guardiã do amor, que o distribua, o alimente e se preocupe com ele. A função mais importante como guardiã do amor é amar os homens. Uma mulher “verdadeira” e certamente a “boa” é uma mulher que ama e se casa, que cultiva ninharias, enfeites, bebês e em especial os meninos grandes que são os homens “verdadeiros” os príncipes. Já a mulher independente e autônoma em si mesma, nessa contexto é vista como a chegada a Oz da Bruxa Malvada do Oeste, ela é a encarnação de Lilith cujo pensamento é subversivo e sua existência é um convite a romper com o ENCANTO.

No entanto, enquanto a mulher cinderela a “verdadeira” mulher cultua ter a sua identidade conhecida como “mulher de fulano de tal...”, por outro lado a autônoma “independente” tem em seu destino buscar sua identidade definida por si mesma e não por adjunto de “seu” homem; Ela pode ou não terminar com “fulano de tal”, mas se o fizer não será como “Sra. Fulano de tal”, desafiando as suposições ocultas da nossa cultura. Então será ela uma encarnação de Lilith? Ou será ela feliz na sua independência? Para a sociedade é vista como a infeliz, já que todas as mulheres são mais felizes quando fazem par com um homem.

Portanto, qualquer coisa que as mulheres estiverem fazendo quando não estão em parceria com um homem, mesmo que pareça felicidade, é na verdade, para a cultura “cinderelista” uma felicidade irreal. Talvez, na perspectiva analítica, seja por isso que algumas mulheres quase enlouquecem tentando entrar em um relacionamento com um homem dizendo a si mesma que isso é felicidade, mesmo que se sintam profundamente infelizes.  Concluindo, numa reflexão analítica, se faz necessário que a mulher seja ela “independente” ou a “verdadeira cinderela” reflita sua posição frente ao amor, à necessidade de ser feliz somente em parceria com um homem, à necessidade de uma vida amorosa mesmo que esta esteja trazendo os momentos mais difíceis de sua vida, porque quando a mulher não aprova a dependência à uma parceria como o mais importante da sua vida, ela fica livre para amar como, quem e quando quiser, sem se submeter ao protocolo cultural da  sociedade.

Referências

GOMES, A. M. de A. e ALMEIDA, V. P. O Mito de Lilith e a Integração do Feminino na Sociedade Contemporânea. Âncora Revista Digital de estudos em religião, v.2, 2007.

NEOTTI, A. A mulher no mundo em conflito. Ponta Grossa, 1973.

SICUTERI, Roberto. Lilith: A Lua Negra. São Paulo; Paz e Terra, 1998.

Autora: Profa. Dra. Valéria Aparecida Chechia

Um comentário:

Beto disse...

Artigo Magnífico!!!! Informativo e Instigante. Realmente nos faz pensar o verdadeiro posicionamento feminino hoje,......diante de tantas mudanças ao longo dos tempos e nuances, vale o exercício de imaginar como estará a mulher diante da sociedade e de si daqui 30, 50 anos???