A mulher do século XXI segundo Gomes e Almeida (2007)
conquistou sua liberdade e sua igualdade jurídica perante a comunidade dos homens,
contudo, a figura feminina continua envolta em uma bruma de mitos e de
ignorância sobre seus papeis sociais. O papel que a mulher ocupa na sociedade
atual demonstra claramente as consequências deste fato construído historicamente
e que estabelece as normas que orientam sua posição no círculo social. Compreender
essa dinâmica ao longo do tempo é essencial para que se identifiquem os fatores
que interferem na imagem feminina e em suas possibilidades de alcance nos mais
variados setores da sociedade. A mulher contemporânea é mãe, profissional, esposa
e ainda deve encontrar tempo para cuidar de si. Nesse sentido, a Psicologia
Analítica de Carl Gustav Jung faz referência a alguns aspectos do inconsciente
e suas relações com o mito de Lilith
Na mitologia Lilith não
é explicitamente apresentada nas escrituras Judaico-Cristãs, porém, vem sendo
estudada em textos da antiguidade, principalmente da Torah assírio-babilônica e
hebraica, além de outros textos apócrifos. Lilith é a primeira companheira de Adão, criada do
mesmo material que ele, igual a ele. As lacunas bíblicas permitem a hipótese da
retirada desta personagem do texto, além do mito em si e as análises
pertinentes à Psicologia.
“O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que
estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística,
que se colocada lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica
dos sacerdotes (…) a lenda de Lilith,
primeira companheira de Adão, foi perdida ou removida durante a época de
transposição da versão jeovística para aquela sacerdotal, que logo após sofre
as modificações dos pais da Igreja”, como explica Sicuteri (1998, p.43). Segundo
esta narrativa mítica, ao contrário de Eva que foi criada por Deus da costela de
Adão ( segundo a narrativa de Gênesis), Lilith,
de acordo com Hermínio, foi feita do barro, à noite. Lilith tinha em
sua aparência obscura sangue, saliva e lágrimas.
Assim, Lilith teria sido criada tão bonita e interessante que logo arranjou
problemas com o primeiro o homem. Ainda segundo a narrativa mítica, Eva foi
criada para substituir Lilith. Eva seria o oposto de Lilith.
No entanto, na perspectiva do mito, as relações
entre Adão e Lilith foram marcadas pela emergência pela paixão capaz de dominar
Adão e fazê-lo perder a razão e entregar-se a luxuria. Acredita-se que a
sedução produzida por ela o fazia afastar-se de seus compromissos com a
divindade. A tradição dos transcritos oral das versões aramaicas e judaicas
afirmam que a relação entre os dois era perturbadora. Os conflitos entre Lilith
e o primeiro homem decorriam da atitude desta contra a submissão que lhe fora
imposta pela comunidade patriarcal. Diante da recusa de Adão ao pedido de
Lilith por igualdade, inclusive durante as relações sexuais, ela é expulsa da
comunidade dos homens e recebe como punição o exílio no Mar Vermelho e sua transformação
num demônio feminino (Gomes e Almeida 92007).
Ainda, conforme Gomes e Almeida (2007) a narrativa
do mito de Lilith nunca foi considerada como canônica pelos Pais da Igreja pertencendo
a chamada literatura apócrifa ou deuterocanônica. A alta crítica de caráter liberal considerou
estes escritos como pertencendo a chamada produção jeovística, que precede de
alguns séculos, a versão canônica sacerdotal. Esta versão é contestada pela
igreja católica e protestante. Para os autores Lilith é desconhecida do
cristianismo primitivo embora tenha aparecido nos primeiros séculos da era
cristã.
A tradição oral de acordo com Gomes e Almeida (2007)
afirma que Adão queixou-se a Deus sobre a fuga de Lilith e, para compensar a
tristeza dele, Deus resolveu criar Eva, moldada exatamente para as exigências
da sociedade patriarcal. Eva, segundo a narrativa bíblica foi criada por Deus à
partir da costela de Adão. É o arquétipo, modelo feminino, segundo a tradição judaico-cristã.
Desse modo, Eva é aquela mulher submissa e devotada ao lar. Assim, enquanto
Lilith é força destrutiva (o Talmude diz que ela foi criada com a imundície da
terra e do lodo), Eva é construtiva e Mãe de toda humanidade (ela foi criada da
carne e do sangue de Adão) segundo Gen. 2: 1-21. O ideal de uma mulher submissa
domina o imaginário cristão na sociedade católica brasileira. Este desejo de
submissão da mulher ao homem pode ser bem exemplificada pela síndrome de Amélia
do poema “Ai que saudades da Amélia” da letra de Ataulpho Alves e Mário Lago.
Na perspectiva analítica de Carl Gustav Jung os
mitos são considerados como verdades puramente psicológicas, ou seja,
estruturas da mentalidade humana. São arquétipos que servem para compreender o
desenvolvimento do pensamento humano em sua totalidade. Não convém discutir se
Lilith existiu, se foi um mito dos povos pré-bíblicos ou não. Importa considerar
o mito como uma parábola para se compreender alguns comportamentos femininos
atuais. Desse modo Lilith é atual e serve para compreender alguns aspectos do
comportamento da mulher ocidental em sua luta pela reintegração na comunidade
dos homens. O mito de Lilith não esgota em si mesmo tudo que se pode escrever
sobre a mentalidade da mulher.
Na visão junguiana, Lilith seria o lado obscuro e
negativo da anima, isto é, os aspectos femininos não integrados da psiquê
humana. Em termos gerais, isto quer dizer, que ela representa o oposto das
características que foram culturalmente atribuídas como obrigações femininas.
Lilith representa, portanto, a rebeldia contra a passividade, à submissão e a
obediência. O repúdio à tradição patriarcal de dominação do homem sobre a
mulher; a luta pela igualdade de condições e direitos e principalmente o
desenvolvimento de ações seguras e assertivas diante de seus ideais.
Relacionando esse mito à psicologia analítica
pode-se afirmar que ele carrega em sua estrutura onírica uma verdade puramente
psicológica. No caso de Lilith o mito refere-se a uma figura arquetípica
feminina: o lado negativo da anima, cujo caráter de arquétipo assegura seu
aspecto primitivo. Lilith é a mulher em estado natural, antes de sofrer as transformações
impostas pela cultura. Neste estado a mulher recusa-se a submeter-se ao homem
seja no ato sexual, seja nas relações entre os sexos na vida cotidiana. Lilith,
portanto, se reconhece como igual ao homem, não admitindo nenhuma hierarquia
nem biológica, nem social. É sua igual e espera ser tratada assim pelo varão
como enfatiza Gomes e Almeida (2007).
E então? O que há de errado com as mulheres independentes?
São todas loucas ou demoníacas como a mitológica Lilith? Ou ambas as
coisas? O lado demoníaco parece ser o
resultado da tentativa da mulher em reinventar a condição de mulher em uma
cultura que prescreve um papel muito diferente como sendo adequado para as
mulheres. O que observa-se é que a mulher, “verdadeira”, a cinderela que precisa
de um príncipe, ainda é a mais aprovada pela sociedade, enquanto que as
independentes ainda lutam contra os critérios advindos da cultura tradicional
que prescreve que toda mulher deve ter um homem, se casar, ser mãe e cuidar da
prole.
Para Neotti (1973) está ocorrendo uma transformação
na imagem tradicional e servil da mulher. A mulher não é mais objeto de
satisfação dos desejos do homem e símbolo da natureza bruta, mas sim mediadora
do próprio universo, sujeito, pessoa livre, consciente e responsável. Torna-se portanto
tormento para o homem, questionando-o a cada momento de sua existência comum,
no mais profundo do seu ser.
Todavia a mulher independente está tendo um novo
olhar para o amor, para os homens, para o trabalho e estão pagando um preço
alto, em especial sobre o amor, já que nossa cultura considera o amor um “tema
feminino dependente”. Espera-se que a mulher seja guardiã do amor, que o
distribua, o alimente e se preocupe com ele. A função mais importante como
guardiã do amor é amar os homens. Uma mulher “verdadeira” e certamente a “boa”
é uma mulher que ama e se casa, que cultiva ninharias, enfeites, bebês e em
especial os meninos grandes que são os homens “verdadeiros” os príncipes. Já a
mulher independente e autônoma em si mesma, nessa contexto é vista como a
chegada a Oz da Bruxa Malvada do Oeste, ela é a encarnação de Lilith cujo pensamento
é subversivo e sua existência é um convite a romper com o ENCANTO.
No entanto, enquanto a mulher cinderela a “verdadeira”
mulher cultua ter a sua identidade conhecida como “mulher de fulano de tal...”,
por outro lado a autônoma “independente” tem em seu destino buscar sua
identidade definida por si mesma e não por adjunto de “seu” homem; Ela pode ou
não terminar com “fulano de tal”, mas se o fizer não será como “Sra.
Fulano de tal”, desafiando as suposições ocultas da nossa cultura. Então será
ela uma encarnação de Lilith? Ou será ela feliz na sua independência? Para a sociedade
é vista como a infeliz, já que todas as mulheres são mais felizes quando fazem
par com um homem.
Portanto, qualquer coisa que as mulheres estiverem
fazendo quando não estão em parceria com um homem, mesmo que pareça felicidade,
é na verdade, para a cultura “cinderelista” uma felicidade irreal. Talvez, na
perspectiva analítica, seja por isso que algumas mulheres quase enlouquecem
tentando entrar em um relacionamento com um homem dizendo a si mesma que isso é
felicidade, mesmo que se sintam profundamente infelizes. Concluindo, numa reflexão analítica, se faz
necessário que a mulher seja ela “independente” ou a “verdadeira cinderela” reflita
sua posição frente ao amor, à necessidade de ser feliz somente em parceria com
um homem, à necessidade de uma vida amorosa mesmo que esta esteja trazendo os
momentos mais difíceis de sua vida, porque quando a mulher não aprova a dependência à uma
parceria como o mais importante da sua vida, ela fica livre para amar como,
quem e quando quiser, sem se submeter ao protocolo cultural da sociedade.
Referências
GOMES, A. M. de A. e ALMEIDA, V. P. O Mito de Lilith e a Integração do Feminino na
Sociedade Contemporânea. Âncora Revista Digital de estudos em religião, v.2,
2007.
NEOTTI, A. A mulher no mundo em conflito. Ponta Grossa,
1973.
SICUTERI, Roberto. Lilith: A Lua Negra. São Paulo; Paz e Terra, 1998.
Autora: Profa. Dra. Valéria Aparecida Chechia
Autora: Profa. Dra. Valéria Aparecida Chechia



Um comentário:
Artigo Magnífico!!!! Informativo e Instigante. Realmente nos faz pensar o verdadeiro posicionamento feminino hoje,......diante de tantas mudanças ao longo dos tempos e nuances, vale o exercício de imaginar como estará a mulher diante da sociedade e de si daqui 30, 50 anos???
Postar um comentário